sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Canções que valem uma história - Um coração calado



Um coração calado


Amara era definitivamente uma moça perversa. Uma perversão tão grande, que surgia quase que automaticamente. E qual não foi a surpresa da mesma ao perceber que o trêmulo João estava derretidinho por ela... João não era um típico galã de novela. Bem pelo contrário, seus atributos físicos não eram os mais belos. Um sujeito esguio, com um guarda-roupa altamente previsível, calças de cores sóbrias e camisas com estampa xadrez. O cabelo sempre impecavelmente alisado no gel e o que mais chamava atenção para sua figura: um senhor óculos fundo de garrafa mesmo, mas tão fundo que chegava a desesperar quem visse. Em um contexto todo, João não era um sujeito feio; mas era como uma bolacha de água e sal... Por que bolacha de água e sal? Ora bolas, quem em sã consciência vai escolher a bendita bolacha tendo tantas outras opções para degustar...

E Amara, ao perceber que esta bolacha, digo, este rapaz estava louquinho da Silva por ela, não pode deixar de se animar. Pelo cortejo? Claro que não. Pela possibilidade de tripudiar de alguém. Acho que isso nem Freud explica... Ela era tão boa nisso, que descobriu facilmente como fazer para judiar do seu pretendente: a música!

João tinha um respeito quase religioso para com a música. Seu violão era seu principal e melhor companheiro. Mas não, João não usava a música como um modo exibicionista; mas puramente como um refúgio, como uma entrega de si mesmo às canções. Por isso mesmo ninguém nunca o viu tocar o mínimo acorde publicamente. Tinha vergonha de expor sua arte. Não se achava ruim no que fazia, mas colocar para terceiros verem suas leituras de músicas... não! As composições, então... nem falar!

Amara já tinha tudo esquematizado, convidaria o pobre João para tomar um lanche. Não, ela não poderia simplesmente convidá-lo. Seria óbvio demais. Por que não fazê-lo acreditar na força do destino juntando duas almas apaixonadas? E assim foi: esperou ele sair da biblioteca, todo atrapalhado como sempre, com seu violão de um lado e alguns livros equilibrados no outro braço. Esse era o momento certo para o maior clichê dos encontros casuais. Amara esbarrou em João, levando seus livros ao chão. Simulou um pequeno desespero ao ajudá-lo a reorganizar a bagunça e aproveitou para com isso puxar assunto. Até porque puxar assunto teria de partir dela mesmo, pois o coitado só conseguiu trocar umas cinco ou sei palavras.

Aproveitando para pedir desculpas pelo ocorrido, Amara se dispôs a tomar um refrigerante com João. Ali próximo mesmo, na pracinha que ficava logo em frente. João, suando mais do que maratonista em plena São Silvestre, aceitou. E Amara, cheia de si, começou a conversar com João. Perguntou qual era o tipo de música que o João mais gostava, já que ele sempre andava com o seu violão. E ouviu timidamente que era a bossa-nova. Em tempo para a primeira alfinetada:

- Ai, aquela musiquinha arrastada... Bom para dormir!

E então veio o golpe principal. Pediu para João cantar algo. Após uma sessão quase interminável de uma tosse nervosa, João relutou bastante para evitar se abrir daquela forma. Mas Amara era determinada, já estava retirando seu violão da capa e exigindo uma música apenas, curtinha mesmo; mas que ele fosse educado e cantasse para ela ver.

João pegou o violão, estava um camarão de tão vermelho. Amara tentava esconder a maldade dos seus olhos. Estava se divertindo horrores com aquela cena. Sutilmente começa a dedilhar algumas notas, num som quase inaudível. E abriu a boca.

Sua voz saiu sofrida para entoar alguns versos. Era o que Amara queria. O suficiente para magoar sem as palavras, bastou franzir um pouco a testa e fazer aquela cara de “o que é isso?”... João percebeu e apressou-se um pouco mais para terminar logo a canção. O tempo exato de se livrar de tal situação constrangedora. Agradeceu o refrigerante, jogou umas duas desculpas esfarrapadas e se foi; certo de que jamais teria coragem de chegar perto de Amara novamente, a gosto ou a contra-gosto.

Vitória. Um pequeno sorriso se faz na face de Amara. O que ela ganhou? Apenas o prazer de ter seu desejo realizado... e ficou ali, observando João sumir pelas ruas e pensando...E nesse momento seu sorriso começava a se desfazer. Na sua mente só ficava uma coisa, o som agradável dos acordes serenos de um violão. Sim, gostava da calma da bossa-nova, mas agora era tarde.

(21/01/11 – 02h00)

Conto baseado na canção "Desafinado" - Autores:Tom Jobim / Newton Mendonça





PROJETO: Canções que valem uma história

Há tempos queria reavivar meu blog, mas buscava uma idéia legal e amadurecê-la para isso. Assim, inicio o projeto (série): Canções que valem uma história.

O projeto tem como objetivo revelar uma possibilidade narrativa em canções conhecidas (às vezes nem tanto!). Quem nunca imaginou uma historinha nas entrelinhas de uma canção?

Pois bem, estas são as (curtas) histórias que eu imagino. Narrativas as mais diversas baseadas em canções.

Admito que não é um projeto inédito. Essa idéia floriu a partir do início da leitura de “Esta história está diferente”, organizado pelo Ronaldo Bressane. O livro conta com uma verdadeira constelação de autores nacionais e internacionais, cercados pelas músicas de Chico Buarque. Ainda não concluí todos os contos, mas é fenomenal. E qual não foi a surpresa ao perceber que a Globo lançou uma genial série com a mesma linha: “Amor em 4 Atos”.

O objetivo não é limitar meus olhares apenas a obra de Chico Buarque, mas expandir a outras músicas que dêem para contar uma boa história. E para isso, conto com a ajuda de vocês, ok! Sugestões sempre serão bem vindas =)

sábado, 26 de junho de 2010

Conto: Desapego

Coisa difícil o desapego. A todo o momento temos de nos desapegar a algo. Desde a barriga da mãe. E não foi diferente com aquele objeto. Um brinquedo, um trenzinho.

De certa forma, um tanto quanto insignificante, mas que lhe despertara paixões. Sabe aquele brinquedo que você quase não usa, mas que lhe significa muito? Era aquele. Nas poucas vezes que foi usado, o processo de montagem seguia quase que um ritual. Colocar trilho a trilho, placa a placa, montar a estação com seus banquinhos, engatar cada vagão... E na hora de colocar para funcionar: a mágica. Não pelo fato de observar aquele brinquedo, fazendo voltas. Na verdade esse movimento era até cansativo e besta!


O gostoso mesmo era viajar junto com aquele trem. Imaginar quantas vidas passavam por aquele terminal, o que acontecia nos vagões, a infinidade de histórias que eram possibilitadas. Tinha certeza que uma menina tinha esquecido um ursinho de pelúcia, uma menina que seguiu toda a viagem chorando, desapegada forçadamente de seu amigo. E seu amigo estava lá na estação, meio que sem saber o que fazer, sem entender o que tinha acontecido.


Queria muito poder ajudar a menina e o seu amigo, mas era muito, muito difícil parar uma viagem de trem. Tem coisas que não basta querer, há coisas que nos são impossibilitadas. Da mesma forma aconteceu com o passar do tempo. Aquele brinquedo já não lhe tinha serventia e precisava sofrer uma mudança. Doação, lixo... opções. Muito difícil esse momento de se decidir uma separação. Mudar por mudar, por que não uma mudança suave? O fundo do guarda-roupa!

Um lugar secreto para a descoberta de novas gerações. Uma forma de desapego, sim! Estaria fora de seu alcance, até o dia que numa arrumação, encontraria aquele brinquedo e todas as vidas que lhe envolvem voltariam. Um desapego, mas não um desapego total. E essa era a sua diferença, se comparado com aquela menina do vagão.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

Zélia Duncan – Um novo sabor



O ano de 2009 teve grandes surpresas. Como sempre algumas boas, outras nem tanto... No cenário musical, pode-se dizer que SIM, muita coisa boa surgiu, ou ressurgiu.

E assim, no meio de uma verdadeira safra de ótima qualidade, onde você acaba meio que se desesperando com tanta coisa legal para curtir, para degustar, um sabor aparece para lhe intrigar. Sorrateiramente, vai tomando suas “papilas auditivas” e num efeito avassalador, cumpre sua função de droga alternativa: vicia.

Bem, foi esse efeito que o Pelo Sabor do Gesto (2009) da Zélia Duncan teve comigo. Um álbum delicado, suave, leve, positivo, que faz a alma se elevar. E esta sensação tão boa nos tempos caóticos da atualidade não deve ser ignorada. Bem pelo contrário! E foi isso que aconteceu: agarrei-me à doçura da Zélia e sempre, mas sempre mesmo, recorro às suas belas crônicas-musicadas-poéticas nos momentos de aperto. Alivia! Poder presenciar a turnê de tal álbum, experiência singular! O álbum de 2009, A turnê de 2009/10.

Assim, chega ao mercado em 2010 a versão Premium, acompanhada de um DVD bônus. E o delicioso sabor da Zélia se renova, ganha aquele tempero a mais. Tudo bem, a impressão é que foi aquela colherzinha a mais de sal, aquele dente de alho que faltava e rapidamente é acrescentado a receita. Mas faz uma bela e surpreendente diferença.

E foi isso mesmo: um registro visivelmente improvisado, sem mesmo a produção digna de um documentário; mas apenas um típico “como se faz”. Saboroso! Muito legal poder acompanhar em 20 minutos a realização de um “banquete” para os ouvidos. (E a filhinha da Fernanda e do John? Um fofa!). Os clipes são simples, mas eficientes. Lógico que trazem a impressão de algo que falta, os arranjos – já tão bem incorporados às melodias. Mas o essencial está lá: a música e a voz da Zélia. Os dois vídeos são dois presentes: Aberto, com um arranjo diferente e sua câmera-agonia (admito que não curti muito esse vídeo) e a grande pérola FELICIDADE. Apenas recitado. Para que mais? Por que é que estou tão feliz?

Como toda boa degustação, o prazer de ingerir devagar faz que a música se incorpore a você. Dessa forma, o Pelo Sabor do Gesto – CD, DVD, Show e tantas coisas boas que a Zélia queria fazer desse trabalho – é um verdadeiro prato cheio para alma, coração e ouvidos, devendo ser consumido sem uma gota de moderação.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

CONTO: Saudade...

Palavra particular. Nossa. Assim como aquela saudade que aperta no peito. Uma saudade de não sei o quê. Uma saudade doentia. Quase que necessária para viver. Para se fazer importante. Todos os dias saía de casa e ia para um parque, no finalzinho da tarde, pra junto ao verde, pensar... Engraçado como um simples fato como esse poderia fazer a diferença. Seu modo de liberar tudo o que lhe vinha em mente, em especial a saudade. Saudade do que viveu, saudades das coisas boas que viverá, saudade das coisas ruins já vividas...não! Essas não! Dessas, distância! Não era necessário algo em específico, um amor, um grande acontecimento, uma importante conquista, nada. Bastava apenas sentir. E sentia. Gostava quando essa saudade estava condicionada a pequenas coisas do dia a dia, aquelas que normalmente passariam despercebidas, e passam por quase todos. Olhava as crianças em volta, brincando inocentemente e sentia saudades do tempo em que estava ali, naquele mesmo papel. Não exatamente daquele jeito, mas curtindo a infância. Recordava cada detalhe das brincadeiras com os primos e primas, da família numerosa, das conversas animadas dos domingos à tarde... Tardes essas quase que sagradas, meio que ritualísticas. Tardes de sons, cheiros e sabores agradáveis. E o melhor: não tinha nada de extraordinário. O sabor era de um manjar com doce de ameixa, a coisa mais simples e talvez por isso mesmo a mais intrigante de saborosa. Hoje, o questionamento que fica é: por que coisas simples e que funcionam tão bem não podem conviver pacificamente com as mudanças? A resposta, se existir, reside aí mesmo: na mudança. E tinha perfeita consciência daquilo. Uma vez nesse processo cíclico, tais coisas se perdem no meio do caminho... talvez seja a famosa pedra do Drummond. O que se sabe é que naquele domingo, tudo estava mais diferente do que já vivera. Não estava ruim, de fato. Porém as cores, os cheiros e os sabores já não eram mais os mesmos. No meio daquela divagação, uma surpresa. Ao lado uma barraquinha de comidas típicas no parque vendia acarajés, tapiocas e um manjar. Impossível no meio de todos aqueles pensamentos não querer retornar ao que era antes. Assim, catou o valor necessário para o seu ingresso a uma viagem de volta no tempo e comprou seu doce. Muita expectativa para comê-lo. Ao fazer o que tanto ansiava, a decepção: doce demais. Não sabe se foi o fato do excesso na expectativa ou na mudança que aquele doce representava. A verdade é que após três provas, acabou se tornando algo intragável de tão enjoativo. Certas coisas são feitas para serem aguardadas, pensou. Procurou o lixeiro mais próximo e ali jogou seu pedaço de tentativa frustrada de recordação. E foi embora, seguindo com novos pensamentos sobre as obrigações que a vida lhe impora. No caminho, uma descoberta: sabia o porquê da tentativa de reviver um momento saboreando um doce de sua infância não deu certo. E nada tinha a ver com momento, idéias, ausências. O motivo era o mais simples de todos: muito açúcar.

(Dedicado a minha avó)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Maria Gadú - "Viver um ano em segundos"


Maria Gadú com certeza foi a maior revelação da cena musical brasileira de 2009. Isso não sou eu quem confirma, mas sim uma gama enorme de críticos da área. Uma garota novinha, tímida, com um sorriso lindo, um abraço sincero e aconchegante. Mais do que isso, muito mais: dona de uma poderosa voz e de uma música tocante. Seu CD de estréia guardou boas surpresas para todo mundo. Muitos amaram, muitos odiaram ou acharam comercial; mas o certo é que este é um disco de impacto inicial. Talvez um pouco massacrado pelo excesso de músicas difundidas em novelas e minisséries (um total de quatro!). Porém, Gadú imprime seu jeitinho cativante no disco e até quem não curtiu muito, acabou se rendendo aos seus encantos, que colore e faz bem!


O ÁLBUM PASSO A PASSO

De cara, a suave “Bela Flor” mostra o paradoxo adotado entre a imagem metamórfica da Gadú, seus moicanos e suas baladinhas suaves. Se ao ver a foto da Maria, você espera um som pesado, pode mudar de idéia... “Altar Particular”, uma das mais belas do álbum, ganha arranjo sofisticado para uma letra forte. “Dona Cila” é simplesmente emocionante; assim como foi para Gadú, impossível não escutar essa música e lembrar-se de alguém querido que já se foi. “Escudos” já traz um pouco do ritmo ao disco, colada ao hit “Shimbalaiê”, que para mim é uma das mais fraquinhas, porém a mais conhecida do grande público e que tem umas frases lindas (Ser capitã desse mundo / Poder rodar sem fronteiras / Viver um ano em segundos / Não achar sonhos besteira). “Ne Me Quitte Pas” lógico que não tem a força visceral da versão definitiva da Maysa (Almodóvar que o diga!), mas ainda assim é uma bela e contagiante versão; além de fina, claro! “Tudo Diferente” é outra da série música fofa e redonda, ou música para comer, como definiria o Moska. Essa sim, acredito que teria força maior para música de divulgação. “Laranja” é a outra música que contagia pelo balanço, mesmo com letra fraca. “Lounge” é a típica música cabeça para se ouvir numa fossa: ótima! Suave e inteligente. Já “Linda Rosa”, prefiro não comentar, pois acho a mais insossa do álbum. “Encontro” tem uma vibe meio Pernambuco, um toque na introdução que lembra Lenine e uma letra linda de morrer. “A História de Lilly Braun” já virou uma versa definitiva para releitura do Chico Buarque, uma das maiores surpresas do CD. E para finalizar, a divertida “Baba” da Kelly Key aparece para a paixão e ódio das pessoas. Só a Gadú para conseguir tal resultado.


GADÚ EM RECIFE

Gadú já aportou no Recife duas vezes: a primeira para fazer a abertura do show do Moska. Um momento mágico, onde parecia haver no teatro apenas ela, seu banquinho e seu violão. A platéia toda vidrada, acompanhando e cantando suas composições. A segunda vez que Gadú veio a Recife foi recentemente para a prévia do Guaiamum Treloso (29/01/10), como convidada para uma participação no show do Lula Queiroga. E qual a surpresa que, mesmo para cantar apenas três músicas, ela era uma das mais aguardadas da noite, juntamente com a Teresa Cristina que também fez uma linda participação especial e da atração principal, os Titãs. Um show surpreso e delicioso na beira da praia, em Maracaípe. Fora as loucas idas ao aeroporto. Próxima parada: Cabedelo - Paraíba, dia 24/04/10. E depois, dia 05/06/10 - Gadú e Vercillo na prévia dos Dias dos namorado em pleno Chevrollet Hall! Louco para ver a voz da maria se espalhando naquele espaço imenso!