segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Lourival Batista - Palhaço Que Ri e Chora


No início de 2009, estive completamente envolvido com a monografia para conclusão do curso de Especialização em Literatura Brasileira na FAFIRE.
O tema escolhido: lógico que a poesia popular. Um poeta em especial: o genial LOURO DO PAJEÚ.
Oportunidade ímpar mergulhar no mar de sua rica poesia durante meses. Desespero no começo, pois estava meio que desbravando a temática, mas aos poucos fui relaxando e alcancei o resultado esperado (assim acredito!).
Assim, escolhi postar aqui uma de suas poesias mais singulares para mim, seguido do comentário que construí no corpo da monografia. SALVE, LOURO!!!

Mote: palhaço que ri e chora.

Pinta o rosto, arruma palma
d'entre os néscios e sábios
o riso aflora-lhe os lábios
a dor tortura-lhe a alma.
Suporta com toda calma
Desgosto a qualquer hora;
ama sim, mas vai embora
vive num eterno drama:
Pensa, sonha, sofre e ama
Palhaço que ri e chora.

Tem horas de desespero
quando a vida desagrada
sentindo a alma picada
tem que ir ao picadeiro.
Se ama esquece ligeiro
porque ali não demora
chagas dentro, rosas fora
guarda espinho, mostra flor
misto de alegria e dor
palhaço que ri e chora.

Se quer alguém com desvelo
deixar é martírio enorme
se vai deitar-se não dorme
se dorme tem pesadelo.
Sentindo um bloco de gelo
lhe esfriando dentro e fora
desperta, medita e chora.
Sente a fortuna distante
julga-se um judeu errante
palhaço que ri e chora.

Palhaço, tem paciência!
Da planície ao pináculo
o mundo é um espetáculo
todos nós uma assistência.
Por falta de consciência
gargalhamos sem demora
choramos a qualquer hora
sem força, coragem e fé
porque todo homem, é,
palhaço que ri e chora.
(Lourival Batista, s/d)

"O poema é composto por quatro décimas que, como de costume, finalizam-se com a idéia do mote. A partir deste o mote pode-se perceber que será realizada uma reflexão sobre a figura mágica do palhaço, resumindo os sentimentos humanos mais importantes: a alegria e a tristeza, sentimentos presentes nas máscaras gregas, símbolo do teatro. O palhaço neste poema passa a ser uma metáfora do homem moderno, que vive neste dilema, neste paradoxo; é o símbolo da alegria, mas vulnerável as tragédias que a vida traz. E é esse dilema que ponteia as três primeiras décimas, que pode ser comprovado pelos contrastes existentes nos versos “o riso aflora-lhe os lábios / a dor tortura-lhe a alma”; na obrigação do palhaço em fazer as pessoas sorrirem, mesmo não estando com a alma alegre “sentindo a alma picada / tem que ir ao picadeiro”, “chagas dentro, rosas fora / guarda espinho, mostra flor / misto de alegria e dor”. A última décima serve como um conforto, uma súplica para esse palhaço, “Palhaço, tem paciência!”. A mesma paciência que todos os homens devem ter ao se depararem com uma situação difícil, pois “todo homem, é, / palhaço que ri e chora”.
Inegável o cunho filosófico que permeia todo o poema e outras composições do Louro. A figura do palhaço e sua condição de existência servem tanto para o homem do sertão que trabalha com o gado quanto para o homem da cidade, administrador de uma grande empresa. Neste ponto, ambos são idênticos. Todos riem e choram.
Fica impossível negar que a vivência na cidade grande e o acesso a outras culturas não tenha ajudado Lourival Batista a perceber tal fato."

Título do Trabalho: LOURIVAL BATISTA PATRIOTA - Um cantador entre o rural e o urbano
Autor: BRUNO GARCIA DE ARAÚJO
Orientadora: Profa Dra Luzilá Gonçalves Ferreira
Recife, 2009

Um comentário:

  1. incrível o ritmo não?... ao lermos o texto, imaginamos o poeta recitando. também sou chegado a essa coisa de poesia. e o repente é um amor de criança. cresci ouvindo aboios e repentes, ivanildo vila nova é um mestre mas lourival batista é um mito.
    bruninho, depois passa lá no meu blog´. não é o BBB mas vc pode dar uma espiadinha. vê o texto que escrevi pra outro lôro: lourival holanda. http://ventosbrandos.blogspot.com

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